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É justamente essa coisa nó entalada na garganta. Vontade de chorar, dois pontos, inevitável. Nada há no mundo que dê a isso cabo, fim, vencimento. Existe e só. O que é que eu faço – pergunto aos botões – com esse desejo de trancar-me no banheiro?
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A tarde desfila suas cores. Mar azul e uma infinidade de sóis guardados na areia. As pessoas mais queridas vivem todas em mim. Por alguns momentos pensei que podia ser triste, mas essa noite tive sonhos bons… Senti que a morte e o fim fazem parte natural do processo de existir. Quando ciclos se fecham, outros são possíveis, sem deixas de ser contínuo. Existe beleza demais em um mundo inteiro, de sons, luzes e dores. Existe grandeza demais em tudo que, tão pequeno, floresce.
Esses dias as músicas me trouxeram pessoas, fotos, gostos e percebi que não tenho medo do passado, de mim, dos meus amores!
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- Bom dia, como vai você?
Ela me recebe com um sorriso.
E eu fui falando, falando, falando, falando. Desfiando as contas do meu rosário secreto. Era como contar para mim mesma e ir vivendo de novo, colocando cada sorriso no seu lugar, cada vontade no seu tempo, cada delírio no meu mundo. Estava precisando mesmo aquietar no peito tudo dos últimos dias, as palavras, as mãos, abraços e cheiros e tudo.
Eu que gosto assim das pessoas e de suas mais loucas histórias me sinto tão inteira ao encontrar as minhas.
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Eu estava lá, no alto dos meus catorze anos, e com toda a maturidade que essa idade de descobertas pressupõe, parada na porta da frente de um colégio. Interior da Bahia, sol a pino e pouco gosto pelas músicas que eram moda na época. Meninas de catorze anos estavam bonitinhas, convencendo os pais a saírem à noite com as colegas e paquerando os meninos também bonitinhos da turma. Eu estava só parada na frente do colégio, com a mesma sensação de e.t. rock’nroll de sempre.
Só alguns anos depois, depois de me conhecer um pouco mais é que consegui entender direitinho o que aconteceu naqueles dias. A verdade é que, na época, era impossível mesmo cogitar qualquer interesse masculino, que não fosse pra um jogo de bola ou trocar um disco, direcionado a mim. Estranha de roupas estranhas e pernas compridas.
Ele parou na minha frente, uns seis anos mais velho e ser seis anos mais velho era tão muito! Era dirigir carro, transar com a namorada, sair de madrugada, beber cerveja… Nem lembro do que pensei na hora, com ele parado ali, qualquer coisa acho, coincidência, pedir informação, sei lá. Ele ficou me olhando de um jeito estranho assim, parado. Perguntei se podia ajudar e ele sorriu e me cumprimentou. Ele sabia meu nome! É claro que o dele eu sabia, todo mundo na escola sabia embora ele nem estudasse mais lá. Mas, ele sabia o meu nome e estava ali, parado na minha frente, puxando conversa. Eu lembro que foi engraçado pensar em como nunca sabemos que impacto causamos nos outros.
Emendamos uma conversa divertida sobre qualquer coisa. Livros, músicas, a falta do que fazer numa cidade pequena como aquela. Discordei de algumas coisas, concordei com outras. Ele pediu um número de telefone antes de se despedir, eu declinei, não sei mesmo o que havia para falar ao telefone com alguém que eu mal conhecia. As outras vezes em que nos encontramos foram parecidas, casuais, alegres e sem mais nada depois de dizer tchau.
Eu pensava nele, de vez em quando. E ele foi figura constante de fantasias e desejos de um tempo tão distante e bom. Tão distante no tempo e no espaço que eu nem sei quando deixou de existir depois que mudei de cidade. Eu nunca parei pra pensar e nem esperei que depois de tanto tempo fosse saber de novo notícias daquele menino.
E de repente ele estava bem ali, virtualmente perto, alguns catorze anos mais velho, descrevendo para uma mulher adulta e cheia de noção de si as coisas que ela levou um tempo para perceber sozinha. As coisas que pareciam impossíveis. Ele gostava de mim e me falou ter desejado algumas vezes mais do que fomos, os beijos e abraços que eu jamais supunha. Me falou que pra saber gostar de alguém é preciso saber deixar que gostem da gente. Algumas coisas ficam pra depois ou pra nunca mais e não é possível lamentar, pra todo o resto, pra de hoje em diante eu quero saber, saber deixar ser.
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Meu quarto parece ter triplicado de tamanho.
Parece imenso e cheio de todos esses objetos. Cama, televisão, roupas espalhadas. Esse cheiro e essa bagunça sem fim em meus pensamentos que insistem em me manter nas primeiras horas do dia…
É sempre assim, desde que começou a existir.
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O carro da garagem pra rua, trânsito, tudo rápido demais. Letras de música vão se misturando. Informações que não bastam, trabalho que não cansa, trabalho demais.
Essa idéia de que é como viver numa fotografia antiga, com cores bonitas e como se hoje já fosse distante demais.
Eu quero tempo pra colecionar saudade!
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Dessa vez, não faremos as malas. Fiquemos aqui. Dessa vez, mesmo que pense o mundo que estamos longe, só estamos mais perto. Dessa vez, os sonhos ruins é que estão de partida.
Essa noite tive um sonho bom.
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Há certas saudades que são poéticas, outras servem de cadeado ao coração. E eu não desejo viver de taquicardias, medos e mágoas.
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O poeta me sussurrou ao pé do ouvido: “não seja imortal posto que é chama, mas seja infinito enquanto dure”, eu acreditei. Que quando uma história começa, é como um conto que escolhemos escrever, mesmo sabendo que não nos cabe escolher o final. A gente começa acreditando que é pra sempre, que vai ser a mais incrível de todas as histórias, o futuro mais lindo e completo de todos os sonhos realizados.
Colecionamos fotografias, dias, noites. Colecionamos cores de pôr-do-sol. Letras, músicas, saudades. Esperamos ansiosamente cada novo mês, cada aniversário. Criamos rituais só nossos, planejamos os anos seguintes. Dormimos abraçados, acordamos juntos. Noites ébrias, manhãs de sol, mergulhos intensos.
Aí o amor subiu no telhado…
Eu sei que se pudéssemos escolher não errar, não magoar, o faríamos. Se pudéssemos evitar o erro do outro… Mas, isso é impossível saber e fazer! A gente nunca percebe quando está escrevendo o fim do conto, ou nunca queremos acreditar que possa haver um final. Estamos acostumados a esperar que dure pra sempre o que sempre tem fim.
E existem amores que podem acabar, mas não morrer nunca. Ficam ali, estacionados, esperando as voltas do mundo, esperando pra retomar o que pode ter virado terreno de nunca mais… Enquanto a grama vai crescendo, enquanto os carros transitam, enquanto o sol adormece e acorda no horizonte, outras pessoas existem, outras histórias convergem, outros mundos se criam.
Sempre dói quando acaba, sempre parece insubstituível (e acredito que o seja!), não existirá outro amor igual, isso é certo! Também é certo que já não somos mais aqueles que de repente se descobriram namorando há anos atrás, que contavam as horas para um encontro, que usavam madrugadas e bancos de praça como testemunhas. Duas novas pessoas existem depois que um amor acaba. Se melhores ou piores, é possível escolher.
As despedidas são difíceis, eu sei. Mas não dá pra saber o que escolherão, o que escolheremos nas próximas páginas. Eu só desejo um sonho novo, mais intenso e forte, que os personagens sejam felizes, sejam quais forem! Que o amor que morre seja uma porta imensa, aberta para tudo o que pode nascer. E que esteja certo o poetinha, porque o mais importante do amor é que ele existe, mesmo que não dure para sempre!
- Pra ler ouvindo Pet Sounds dos Beach Boys.
- Por que a vida tem trilha sonora!
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“Ninguém, ninguém vai me segurar
Ninguém há de me fechar as portas do coração
Ninguém, ninguém vai me sujeitar
A trancar no peito a minha paixão
Eu não, eu não vou desesperar
Eu não vou renunciar, fugir
Ninguém, ninguém vai me acorrentar
Enquanto eu puder cantar, enquanto eu puder sorrir
Ninguém, ninguém vai me ver sofrer
Ninguém vai me surpreender na noite da solidão
Pois quem tiver nada pra perder
Vai formar comigo o imenso cordão
E então quero ver o vendaval, quero ver o carnaval sair
Ninguém, ninguém vai me acorrentar
Enquanto eu puder cantar, enquanto eu puder sorrir
Enquanto eu puder cantar, alguém vai ter que me ouvir!”
Valeu, Chico Buarque!